Porto Governo quer investigar as origens do passivo da Codesp, estimado em
até R$ 540 milhões
A participação da iniciativa privada
na futura gestão do Porto de Santos, após sua regionalização e fim da Codesp, tem o
apoio do Governo Federal. A defesa da participação dos empresários foi feita ontem por
Benjamin Sicsú, ministro interino do Desenvolvimento. Sicsú, também presidente do
Conselho Nacional de Desestatização (CND), disse que nas operações portuárias deve
prevalecer a iniciativa privada, enquanto na regulamentação, o estado. "Mas não se
deve abrir mão do setor empresarial, em cuja gestão o governo acredita", disse.
O ministro interino, que abriu ontem o seminário sobre a regionalização do porto,
promovido pela Associação Comercial de São Paulo, enfatizou que o presidente da
República deu ordens para que esse processo se conclua o mais rápido possível. Mas os
termos iniciais do convênio de regionalização descartam o setor privado da
participação acionária da nova empresa, fato que o ministro revelou desconhecer.
Sob a visão do Planalto, a transferência de mando do porto deve vir com garantias de
expansão da atividade, por meio de planos diretores dos municípios de Santos, Cubatão e
Guarujá que, com o Estado de São Paulo, participarão da nova empresa. Além disso, deve
ser criado um estatuto rígido capaz de preservar a eficiência da gestão.
O ponto crítico da transferência do porto para o estado e os municípios é o passivo da
Codesp, estimado em até R$ 540 milhões, e que ainda não tem garantia total de ser
assumido pela União. O CND, segundo Sicsú, pediu à estatal administradora do porto uma
revisão dos números, a fim de conhecer com detalhes a origem dos débitos.
"Vamos ver a quem cabe as responsabilidades", observou. Estado e municípios
têm demonstrado que não lhes interessa assumir uma empresa com passivo e que não estão
dispostos a gastar um real nesse sentido.
O seminário serviu para discussão de problemas que dificultam o desempenho dos usuários
do porto de Santos e cujas soluções transcendem a regionalização. O de maior impacto
refere-se ao roubo de cargas no caminho até o porto, cujas consequências causaram
frustração a representante de empresa de navegação.
Segundo Maria Cristina Ferreira, gerente de logística da Kodak, usuária do porto na
exportação e importação, no trânsito entre a empresa, em São José dos Campos, e o
porto há alta incidência de roubos. "Numa experiência que fizemos para substituir
o transporte rodoviário, para o aquaviário, de 50 contêineres, foram roubados quatro,
com filmes vindos de Manaus", contou.
Maria Cristina atribuiu o fato à multiplicidade de órgãos que atuam com informações
sobre o transporte e "ao alto preparo do crime organizado". A informação
causou impacto ao presidente da Aliança Navegação, armadora que aposta no transporte de
cabotagem para competir com as rodovias. A cabotagem responde pelo equivalente a apenas
0,2% da carga rodoviária.
Segundo a representante da Kodak, a estrutura ferroviária atenderia melhor aos interesses
da empresa, pelo fator segurança. "Não temos confiabilidade e isso pesa mais que
todos os custos", resumiu. |