Especialistas, empresários e, pelo menos, 23 entidades, entre elas
a Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) e Associação
Comercial de São Paulo (ACSP), rejeitaram a criação da Agência Nacional de Transportes
de Aquaviários (ANTAq), proposta pelo Projeto de Lei Complementar (PLC) nº 001/2001, que
tramita no Senado.
O principal argumento é que a nova entidade vai colocar "amarras" no setor
portuário, que vem lutando exatamente para ampliar sua agilidade e reduzir custos, fator
fundamental para desenvolver o comércio internacional do Brasil (veja manifesto abaixo).
"Entendemos que a Lei 8.630/93, que criou os Conselhos de Autoridade Portuárias
(CAPs), tem autenticidade e deve ser prestigiada", afirma José Cândido Senna,
coordenador do Comitê de Usuários dos Portos do Estado de São Paulo (Comus).
Despesa maior Os CAPs, segundo Senna, têm uma estrutura
semelhante às Port Authorities, entidades administradoras dos portos mais modernos e
competitivos do mundo. Ele diz que seria um retrocesso agora subordinar a administração
portuária a um órgão centralizado em Brasília, "cujo custeio será feito, entre
outras coisas, com taxas e cobranças de multas, que irão recair, em última instância,
sobre o exportador e importador, num momento crucial pelo qual atravessa o comércio
externo do País", alerta.
Autonomia máxima O sócio-diretor da Sinastrade.com, Anderson
Sina, concorda com Senna e vai além: "A direção dos portos precisa ter o máximo
de autonomia para poder tomar rapidamente decisões políticas e operacionais. Sem isso,
nossos portos serão condenados à perder a disputa para os concorrentes
internacionais."
Para ele, qualquer agência que possa piorar a burocracia do processo, na tomada de
decisões, vai ser muito ruim para a economia do Brasil: "Especialmente porque os
portos são o ponto nevrálgico das grandes operações de comércio exterior do
Brasil", alertou. Marcos Tadashi Miyake, diretor da ASR Cargo, insiste que a
criação da ANTAq é absolutamente desnecessária, porque, além de já existir um
órgão para desempenhar essa função, "é mais importante agora concentrar
esforços na modernização dos portos brasileiros".
Portos antiquados O diretor da ASR Cargo lembrou que os portos
brasileiros ainda são muito caros, antiquados e ineficientes, quando comparados com
outros. "Até mesmo o Porto de Buenos Aires, na Argentina, anda desviando carga dos
nossos portos, porque tem custos menores", disse. Tadashi Miyake acrescenta que o
Brasil precisa entrar na corrida para atualizar os portos e isso implica, necessariamente,
desamarrar a atividade, para se ajustar aos padrões internacionais. "É bom lembrar
que, se pensarmos em grandes navios, também falta calado nos nossos portos",
salienta. A média do calado do Porto de Santos, o maior do País, é de 14 metros de
profundidade. "Os maiores navios do mundo, que atracam em Cingapura ou Shangai,
exigem 18 metros de calado", afirma. Esse é apenas um dado que é preciso levar em
conta quando se pensa em colocar o Brasil na rota, definitiva, das exportações.
"Sem esquecer que o custo dos portos aqui é, no mínimo, três vezes maior do que o
de Amsterdã, Cingapura ou Hog Kong", acrescenta.
Centralizar Marcos Tadashi Miyake observa ainda que para obter
custos menores, é preciso pensar em transformar os portos brasileiros em "portos
centralizadores", ou seja, que operam como centro de convergência do comércio
internacional de toda uma região. "Cingapura, por exemplo, concentra os negócios da
Ásia", explica. Para reduzir o custo das operações e fretes, ali é desembarcada
as mercadorias de toda a região, "que são redistribuídas para outras regiões do
mundo, como Américas, Europa e pela própria Ásia", resume. (SLR) |