Estudo defende melhora de ferrovia entre SP e Rio

Estudo defende melhora de ferrovia entre SP e Rio Transporte de carga por rodovia no principal eixo econômico do país pode tornar-se inviável

GUSTAVO PAUL

BRASÍLIA – O tráfego anual de cargas no eixo Rio-São Paulo deverá crescer 92% nos próximos 20 anos, e só com a adoção de um sistema moderno de ferrovias será possível absorver parte deste movimento de forma mais econômica. Esta é a principal conclusão do estudo coordenado nos últimos três anos pela Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes (Geipot) sobre o futuro do corredor entre Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. Se a opção do governo for estimular a ampliação do sistema rodoviário na região, serão necessários pelo menos US$ 10,3 bilhões em obras até 2022, ou seja, 517% mais que o necessário para um sistema expresso de carga, orçado em US$ 1,168 bilhão. Realizado pelo consórcio teuto-brasileiro Transcorr RSC, formado pela Varig, Lufthansa, Hamburg Port e Deustche Morgan Grenfell, o estudo mostrou que é economicamente viável para a iniciativa privada investir neste sistema de carga expressa. As receitas dos investidores até 2022 deverão somar US$ 19,334 bilhões, enquanto as custos, incluindo os investimentos para a construção, serão de US$ 6,765 bilhões. “Com isso, a taxa interna de retorno do investimento será de 21% ao ano”, disse o presidente do Geipot, Carlos Alberto Nóbrega. Assim, o investimento pode ser pago em cinco anos. Nas próximas semanas, o Ministério dos Transportes irá apresentar as conclusões para o Ministério do Planejamento e Orçamento. O estudo foi orçado em US$ 8 milhões, financiado a fundo perdido pelo governo alemão. A partir de outubro, deverão ser feitas reuniões com potenciais interessados no desenvolvimento da nova ferrovia, como fornecedores, concessionários das atuais malhas existentes e especialistas em logística. “Como o empreendimento deverá ser financiado com recursos privados, vamos apresentá-lo aos empresários”, explicou o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha. “Com esta taxa de retorno e o potencial de mercado da região, virá gente de todo o lado para estudar o projeto.” Entre as duas principais regiões metropolitanas do País concentram-se mais de 30 milhões de habitantes, circula 60% do Produto Interno Bruto e localiza-se o maior parque industrial. Atualmente, segundo o estudo, 96% do transporte de cargas neste corredor é rodoviário. Os técnicos concluíram que as estradas, principalmente a Via Dutra, mesmo duplicadas, apresentam deficiências gerais de infra-estrutura, com um traçado antiquado, cheio de curvas e por isso mais lento. “Há também elevados níveis de congestionamento, principalmente nas proximidades dos centros urbanos, o que reduz o tempo de viagem e aumenta os custos”, disse Nóbrega.

Os estudos mostram que, para tornar o sistema rodoviário eficiente, será preciso ampliar ainda mais a capacidade das rodovias existentes, o que implicaria em construir novas pistas. “Para tanto, o governo teria de desapropriar vários trechos às margens das estradas, que já estão ocupados por comércio, residências e indústrias, o que significa um custo absurdo”, disse o presidente do Geipot. As ferrovias existentes também apresentam deficiências de pátios, terminais de carga e segurança. Nas proximidades de São Paulo e Rio de Janeiro, o tráfego de carga é limitado pelo transporte intermunicipal de passageiros. Hoje, um trem de carga viaja a cerca de 20 Km/h na região, o que torna economicamente inviável o tráfego de mercadorias pelas estradas de ferro. Segundo o estudo, se forem mantidos os projetos previstos atualmente para as estradas e ferrovias, ao longo dos próximos anos 95,6% do transporte serão feitos por rodovias. O planejamento atual prevê a ampliação da capacidade das rodovias Presidente Dutra, Castelo Branco e sistema Anhangüera/ Bandeirantes, além da duplicação das rodovias Fernão Dias, Régis Bittencourt e as estaduais Imigrantes e Raposo Tavares. Para o setor ferroviário estão previstas obras de recuperação e ampliação de trechos. O sistema Expresso de Cargas proposto pelo estudo do consórcio Transcorr utilizaria as linhas existentes, com melhorias, e dependeria da construção do Ferroanel de São Paulo, cuja construção está prevista no Plano Plurianual de Investimento (PPA) do governo federal. O término do Ferroanel custará US$ 497 milhões, referente a dois trechos de pouco mais de 100 quilômetros. Baseado em terminais automatizados, com despacho aduaneiro e monitoramento do transporte, o sistema Expresso Carga utilizaria trens de 40 vagões a uma velocidade média de 80 Km/h. O estudo prevê terminais em Campinas, São Paulo, Santos e em Rocha Sobrinho, no Rio de Janeiro. Ao longo de todo o trecho existiriam mais 24 estações para carga e descarga de mercadorias. Com este sistema de transporte, os técnicos acreditam ser possível aumentar o tráfego de produtos industrializados e contêineres de 1.911 toneladas ao ano para 22.099 toneladas em 2022, um aumento de 1.056%. Outra conclusão dos três anos de estudo é de que, com o novo sistema de transportes, haveria redução dos congestionamentos e acidentes nas rodovias. São Paulo teria o reordenamento do seu tráfego ferroviário e poderia haver redução de custos para as empresas. “Além disso, os investimentos em rodovias podem ser postergados por pelo menos dez anos”, disse Nóbrega.

Fonte: O Estado de São Paulo, Economia, 16 de setembro de 2000, página B 6A.