Custos portuários limitam altas das exportações

São Paulo - As exportações brasileiras poderiam dar uma contribuição entre 20% e 30% superior à balança comercial se os portos brasileiros tivessem custos menores, capazes de estimular as exportações. A estimativa é do presidente do Comitê de Usuários dos Portos do Estado de São Paulo (Comus), José Candido Senna, considerando os valores por contêineres, que transportam cargas de maior valor agregado, como os manufaturados. No País, 93% das vendas externas são realizadas por transporte marítimo, o que torna os custos portuários peça-chave na conquista de novos mercados. "Qualquer diferença, por mínima que seja, na velocidade de entrega dos produtos ou no preço final da mercadoria, em que estão embutidos os custos portuários, já é uma enorme vantagem competitiva a favor do Brasil", explica Senna.

Os altos custos gerais dos portos brasileiros, na avaliação do vice-presidente mundial da Rhodia, José Carlos Grubisich, também presidente da empresa para a América Latina, impedem que o País se torne uma plataforma exportadora para multinacionais. "Entre manutenção e transporte, os portos brasileiros têm, em média, custo 20% acima da média", afirma. O gerente de Logística e Operações da Rhodia, Mário Basílio, é categórico ao apontar os fatores que limitam as vendas a partir do Brasil: "O custo de logística é fundamental para a exportação. No caso de empresas como a Rhodia, com produtos já reconhecidos mundialmente, o que conta na hora de competir é o serviço, ou seja, a rapidez na entrega e a facilidade de acesso ao mercado externo." A Rhodia, por exemplo, poderia exportar 20% mais, no mínimo, não fossem os custos portuários, até 35% superiores à média de países exportadores. Basílio admite, no entanto, que apesar de os custos dos terminais privatizados não terem caído, a agilidade está sensivelmente melhor.

Considerando-se apenas os números referentes ao Porto de Santos, a produtividade, medida pela velocidade das operações do momento em que mercadoria chega ao porto até o embarque, teve aumento de 105% entre 1996 e 1999. Juntos, o desembarque e a estivagem (arrumação da carga no navio) respondem por 37% dos custos operacionais dos navios no porto. Santos é, hoje, responsável por 45% do total movimentado por contêineres no País, mas já teve uma fatia de 65%.
O diretor do Departamento de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), José Luiz de Freitas Valle, explica que a economia resultante da melhoria de produtividade em Santos nem sempre tem sido repassada ao usuário do porto. Segundo ele, os custos poderiam ter baixado mais, mas não recuaram porque o modelo de arrendamento escolhido pelo Ministério dos Transportes concedeu os terminais de Santos às empresas que deram o maior lance, e não às que ofereciam o menor custo ao usuário. "Isso onerou sobremaneira o investimento, aumentando inevitavelmente a tarifa", diz ele.

Freitas Valle, que representa a Fiesp no Comus, ressalta que os altos custos do Porto de Santos prejudicam todo o Brasil. Segundo ele, Santos responde por 40% do movimento do comércio exterior, ou cerca de US$ 40 bi entre exportações e importações. "Os acertos ou erros do porto afetam cerca de 35 milhões de pessoas, considerando apenas São Paulo e seus vizinhos", afirma ele.

O professor da FGV Manoel de Andrade e Silva Reis, especialista em logística e exportações, diz que o País obteria um aumento de 26,3% no volume de exportações e teria um ganho de US$ 13 bi por ano se conseguisse reduzir pela metade o tempo médio de 124 dias na cadeia de exportação de produtos industrializados, da produção até a chegada do produto ao cliente. Segundo ele, se as empresas conseguissem exportar seus produtos em 61 dias teriam condições para ampliar em 24,2% a fatia de mercado para os produtos brasileiros.

Fonte: Agência Estado - Economia, 22 de agosto de 2000